Cosmos da Filosofia
Um velho poste de cerca de madeira, torto e caído atravessado sobre uma trilha de terra tomada por ervas altas, luz baixa de fim de tarde, sombra longa.

Carlos Drummond de Andrade · 1928 (em Alguma Poesia, 1930)

No Meio do Caminho

Dez versos sobre uma pedra que não sai da lembrança nem do caminho.

ExistênciaTempoConhecimento

Sobre a obra

Carlos Drummond de Andrade publicou 'No Meio do Caminho' em julho de 1928, no terceiro número da Revista de Antropofagia, dirigida por Oswald de Andrade. O poema, de um autor então desconhecido fora de Minas Gerais, provocou reações duríssimas de parte da crítica, que via nele apenas repetição sem sentido.

A repetição de uma mesma expressão central, presente em sete dos dez versos do poema, foi o alvo principal das críticas — e, décadas depois, também o que consolidou sua fama. Drummond reuniu as reações ao poema, favoráveis e contrárias, no livro Uma Pedra no Meio do Caminho: Biografia de um Poema. O texto entrou depois em Alguma Poesia (1930), seu primeiro livro.

Uma leitura biográfica liga o poema à morte do primeiro filho de Drummond, Carlos Flávio, que sobreviveu apenas meia hora após nascer em 1927 — associação reforçada pela observação de que a palavra 'pedra' contém as mesmas letras de 'perda'. O poema tornou-se, com o tempo, um dos textos mais conhecidos do modernismo brasileiro.

Onde está a filosofia

Leituras do Cosmos da Filosofia — aproximações com os filósofos, não a intenção declarada dos criadores.

Marco Aurélio: o obstáculo que vira caminho

Marco Aurélio escreveu que aquilo que impede uma ação pode, se bem encarado, se transformar em parte da própria ação — o obstáculo não precisa ser só um impedimento, pode virar também material para seguir em frente. O poema de Drummond não chega a essa conclusão otimista: ele apenas registra, com insistência quase obsessiva, que a pedra está lá e não sai da lembrança. É uma leitura estoica possível, que o próprio poema recusa a confirmar.