
Ideia
Conhecimento
Definição
Crença verdadeira e justificada, segundo a definição clássica. De onde vem — da razão, da experiência, de ambas — é a pergunta que divide racionalistas e empiristas.
Saber não é o mesmo que acreditar
Todos acreditamos em muitas coisas, e algumas dessas crenças são verdadeiras. Mas nem toda crença verdadeira é conhecimento. Quem aposta que vai chover amanhã e acerta não sabia que ia chover; apenas teve sorte. A área da filosofia que investiga essa diferença — o que é conhecer, como conhecemos e se conhecemos alguma coisa — chama-se epistemologia, ou teoria do conhecimento.
Três modos de conhecer
A palavra "conhecer" cobre coisas bem diferentes:
- Saber que. É o conhecimento de proposições: saber que a água ferve a 100 °C ao nível do mar, que Sócrates morreu em 399 a.C. É o tipo que a filosofia mais estudou.
- Saber como. O filósofo inglês Gilbert Ryle argumentou que saber fazer algo é diferente de saber fatos: alguém pode conhecer toda a teoria da natação e, ainda assim, não saber nadar. Há filósofos que discordam e tentam reduzir o saber-como a um saber-que.
- Conhecer por familiaridade. É conhecer uma pessoa, um lugar ou uma coisa por contato direto. É possível saber uma infinidade de fatos sobre Napoleão sem jamais tê-lo conhecido.
A origem da pergunta: Platão
A distinção entre conhecimento e opinião verdadeira nasce com Platão. No Mênon, ele separa as duas coisas: a opinião verdadeira pode nos guiar bem, mas é instável, enquanto o conhecimento está "amarrado" por uma razão.
No Teeteto, Platão mostra que a opinião verdadeira não basta para haver conhecimento com um exemplo de tribunal: um orador habilidoso pode levar os jurados a acreditar em algo que, por acaso, é verdadeiro, sem que eles tenham presenciado os fatos. Os jurados acreditam na verdade — mas não sabem.
Dessa tradição vem a fórmula que ficou conhecida como a análise clássica: uma pessoa sabe que algo é o caso quando
- isso é verdadeiro;
- ela acredita nisso;
- ela está justificada em acreditar.
Curiosamente, essa fórmula exata foi articulada sobretudo no século XX — em boa parte pelos filósofos que queriam criticá-la.
De onde vem o conhecimento?
As fontes
- Percepção. Ver, ouvir, tocar. Fonte básica, mas falível: os sentidos às vezes enganam.
- Introspecção. O acesso aos próprios estados mentais — pensamentos, dores, desejos. Parece mais protegida do erro do que a percepção.
- Memória. Guarda o que já foi conhecido. Lembrar-se de que algo aconteceu implica que aconteceu; parecer lembrar-se, não.
- Razão. Algumas verdades parecem conhecidas independentemente da experiência — como as da matemática ou a de que nenhum solteiro é casado. É o chamado conhecimento a priori.
- Testemunho. A maior parte do que sabemos vem do que outros nos dizem: livros, professores, notícias. O filósofo escocês Thomas Reid sugeriu que temos uma tendência natural a confiar no testemunho alheio. Explicar por que o testemunho gera conhecimento continua sendo um problema.
Razão ou experiência
No século XVII, essa questão dividiu a filosofia moderna.
- Descartes e os racionalistas sustentaram que há conceitos e conhecimentos inatos ou alcançáveis pela razão pura — as ideias de Deus e de matéria extensa, por exemplo, teriam conteúdo que a experiência não poderia fornecer.
- John Locke e os empiristas responderam que a mente, ao nascer, é como uma folha em branco: tudo o que sabemos vem da experiência. Se houvesse ideias inatas, argumentava Locke, todos os seres racionais as teriam conscientemente — e não é isso que se observa.
- Leibniz replicou com a imagem de um bloco de mármore com veios: a mente não está pronta, mas sua natureza orienta o que pode ser conhecido.
- David Hume levou o empirismo ao limite: nunca percebemos uma conexão necessária entre causa e efeito, apenas eventos que se sucedem com regularidade. É o hábito que nos faz esperar que o sol nasça amanhã.
- Kant tentou uma síntese: todo conhecimento começa com a experiência, mas nem todo conhecimento deriva dela. A mente contribui com formas — espaço, tempo, categorias — sem as quais não haveria experiência alguma. O preço dessa solução é que só conhecemos as coisas como aparecem para nós, e não como são em si mesmas.
Relacionados













