Cosmos da Filosofia
Uma mão protética muito realista pousada sobre uma bancada de oficina, os dedos levemente curvados, sob a luz única de uma luminária de trabalho

Masahiro Mori · 1970

O vale da estranheza

Quanto mais um robô se parece com um humano, mais simpatia desperta — até ficar quase igual e virar repulsa.

ConsciênciaExistência

Sobre a obra

Em 1970, o roboticista japonês Masahiro Mori descreveu, num ensaio intitulado Bukimi no tani genshō (“fenômeno do vale da estranheza”), uma hipótese sobre a relação entre o grau de semelhança humana de uma entidade — robô, boneco ou imagem — e a reação emocional que ela provoca em quem observa. O termo foi traduzido para o inglês como “uncanny valley” em 1978, no livro Robots: Fact, Fiction, and Prediction, de Jasia Reichardt.

Segundo Mori, a simpatia cresce à medida que a aparência se torna mais humana, mas apenas até certo ponto: perto do limite entre o quase humano e o humano de verdade, a reação despenca e vira estranhamento ou repulsa — o “vale” do gráfico que ele desenhou. Passado esse ponto, se a semelhança se tornar completa, a simpatia volta a subir.

Mori observou que o movimento intensifica o efeito: uma prótese de mão muito realista incomoda mais quando se move do que quando está parada, e o mesmo vale para bonecos de teatro bunraku ou zumbis. Ele recomendava que projetistas de robôs evitassem esse ponto intermediário, mirando numa semelhança moderada. A hipótese, sem comprovação experimental rigorosa da parte de Mori, influenciou décadas de design em robótica, animação e efeitos visuais.

Onde está a filosofia

Leituras do Cosmos da Filosofia — aproximações com os filósofos, não a intenção declarada dos criadores.

Uma incerteza sobre o que se vê

O incômodo do vale da estranheza é, em boa parte, uma incerteza perceptiva: o observador não consegue decidir se está diante de algo vivo ou de um objeto, de alguém com mente ou de um mecanismo vazio. É uma versão concreta do problema das outras mentes — a pergunta sobre como saber se há alguém por trás de uma aparência — só que aqui a dúvida vem da própria forma do rosto, não de um argumento filosófico.