Cosmos da Filosofia
Ágora grega vazia ao amanhecer, com um templo ao fundo

séc. VI a.C.

Antiguidade

As primeiras tentativas gregas de explicar o mundo por razões, e não por mitos.

O mundo em que a filosofia nasceu

A filosofia grega começa no século VI a.C., longe de Atenas. Seus primeiros nomes aparecem nas cidades da Jônia, na costa oeste da Ásia Menor — sobretudo em Mileto — e, pouco depois, nas colônias gregas do sul da Itália e da Sicília, a chamada Magna Grécia. Eram cidades ligadas por rotas de comércio marítimo, por onde circulavam mercadorias, pessoas e ideias. A escrita permitia algo novo: registrar um pensamento em um tratado em prosa ou em um poema e fazê-lo circular além da voz de quem o criou.

O pano de fundo cultural era o das epopeias de Homero e da Teogonia de Hesíodo, um mundo povoado de deuses que agiam como pessoas e explicavam cada trovão, cada colheita e cada doença. Os pensadores deste período se afastaram deliberadamente desse modo de explicar. Em vez de atribuir os fenômenos à vontade de deuses parecidos com humanos, passaram a procurar princípios naturais: o mundo como um kosmos, uma ordem que pode ser entendida pela razão.

Por isso a historiografia costuma chamá-los de pré-socráticos — o nome indica apenas que vieram antes de Sócrates, ou foram seus contemporâneos, e não que formassem uma escola. Suas vidas se estendem do século VI ao V a.C.

Como sabemos o que pensavam

Nenhuma obra desses filósofos chegou inteira até nós. O que temos são fragmentos — frases citadas por autores posteriores — e testemunhos, relatos sobre suas ideias feitos por outros filósofos e historiadores antigos, como Aristóteles, seu discípulo Teofrasto e, muitos séculos depois, o comentador Simplício.

A organização moderna desse material vem da edição de Hermann Diels e Walther Kranz, que numerou cada pensador e separou os testemunhos dos fragmentos; ainda hoje os estudiosos citam os pré-socráticos por essa numeração. Em 2016, André Laks e Glenn Most publicaram uma nova coleção. Descobertas arqueológicas continuam mudando o quadro: o Papiro de Derveni, do século IV a.C., traz um comentário filosófico antigo, e o Papiro de Estrasburgo revelou versos desconhecidos de Empédocles.

Essa condição fragmentária tem uma consequência importante: quase toda interpretação sobre os pré-socráticos é debatida. Muitas vezes os lemos através das lentes de Aristóteles, que tinha seus próprios interesses ao resumi-los.

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Tales

Aristóteles apresenta Tales de Mileto, ativo no início do século VI a.C., como o primeiro a investigar a natureza. Tales teria dito que o princípio (arché) de todas as coisas é a água. Aristóteles leu isso como a tese de que a água persiste por baixo de todas as transformações; outra leitura possível é que a água seria apenas a substância de onde as outras coisas surgiram. O que não se discute é a novidade do gesto: explicar a variedade do mundo por algo natural, sem recorrer aos deuses.

Anaximandro

Anaximandro, também de Mileto, propôs como origem de tudo o ápeiron, o indeterminado ou ilimitado: uma substância sem qualidades definidas, da qual se separam o quente e o frio, e deles os fenômenos que observamos. Anaximandro descrevia a regulação do cosmos em termos de justiça: os opostos pagariam uns aos outros a reparação por suas injustiças, segundo a ordem do tempo. A ordem do mundo passa a ser algo interno à própria natureza, e não imposto de fora por uma divindade.

Anaxímenes

Anaxímenes voltou a uma única substância originária, como Tales, e escolheu o ar. Sua contribuição mais marcante foi explicar o mecanismo da mudança: a rarefação e a condensação. O ar rarefeito vira fogo; condensado progressivamente, torna-se vento, nuvem, água, terra e pedra. Pela primeira vez, a transformação de uma coisa em outra ganha um processo explicativo.