Cosmos da Filosofia
Copo de água imóvel sobre uma mesa, com um fundo caótico de luzes desfocadas

Artigo

Como ser calmo em um mundo histérico

A tranquilidade como prática, não como temperamento: o que depende de nós.

11 de setembro de 202612 min de leitura

O celular vibra antes de você sair da cama. Uma crise que não existia ontem, um vídeo de alguém dizendo um absurdo, o grupo da família discutindo em caixa-alta, um e-mail marcado como urgente. Ao meio-dia, você já sentiu medo, raiva, pena e desprezo — por pessoas que não conhece e por acontecimentos em que não pode tocar. À noite, exausto sem ter feito quase nada, você se pergunta de onde vem o cansaço.

A explicação comum é o temperamento. A dos estoicos é mais incômoda. Para eles, a calma não é um traço de personalidade, mas uma habilidade, que se treina. E o treino começa por uma pergunta feita dezenove séculos antes do primeiro celular.

O que depende de nós

O Manual de Epicteto — um resumo de suas aulas, compilado pelo aluno Arriano para ser levado sempre à mão — abre dividindo o mundo em dois. De um lado, o que depende de nós: opiniões, impulsos, desejos e aversões, tudo o que é obra nossa. Do outro, o que não depende: o corpo, os bens, a reputação, os cargos.

As primeiras coisas são livres por natureza; as segundas, frágeis e alheias. A infelicidade nasce de confundir as duas, tomando o alheio como próprio. Quem faz isso vai se frustrar e culpar deuses e homens. Quem põe seu bem só no que é seu não pode ser forçado nem prejudicado por ninguém.

Aplicada a hoje, a divisão é quase brutal. Uma eleição em outro país, o que um desconhecido escreveu a seu respeito, a velocidade com que uma notícia falsa se espalha — nada disso é seu. Seu é o que você conclui sobre essas coisas, o que passa a desejar e temer por causa delas e o que você faz.

Epicteto chama essa capacidade de escolher e julgar de prohaíresis, a faculdade de escolha, e a considera o verdadeiro eu. Um tirano pode prender o corpo, mas não obrigar ninguém a achar que o mal é bom. Daí vem a liberdade estoica: não da ausência de obstáculos, que ninguém tem, mas da posse de algo que nenhum obstáculo alcança.

Espere um pouco

O mundo, porém, não chega até nós em estado bruto. Chega como impressões (phantasíai): aparências que já trazem um veredito embutido. Isto é terrível. Aquilo é ofensivo. Isso não pode esperar.

Os animais agem conforme as impressões que recebem. Os seres humanos têm a faculdade do assentimento: podem examinar uma impressão antes de concordar com ela. Nos Discursos (2.18), Epicteto sugere não se deixar arrastar pela rapidez da impressão: pedir a ela que espere um pouco, ver quem é e o que representa, e pô-la à prova. No primeiro capítulo do Manual, diante de uma impressão áspera, recomenda lembrar que ela é só uma impressão, e não a coisa que parece ser — e testá-la com a pergunta central: isso depende de mim?

Por trás do conselho há uma teoria. Para os estoicos, as paixões — medo, aflição, desejo desmedido, prazer excessivo — não são tempestades vindas de fora: são juízos, ou impulsos nascidos de juízos, a crença de que algo é um grande bem ou um grande mal e de que certa reação é devida. Daí a frase mais conhecida do Manual (cap. 5): não são as coisas que nos perturbam, mas as opiniões sobre elas. A morte não tem nada de terrível em si; se tivesse, teria parecido terrível também a Sócrates.

O sobressalto não é a paixão

Isso não faz do estoico uma estátua. Os estoicos posteriores reconheciam reações que acontecem sem assentimento: o susto, o rubor, o coração disparado. Sêneca, em Sobre a ira, chama-as de primeiros movimentos e as separa da raiva propriamente dita, que só existe quando a mente concorda com eles e decide que é justo revidar. Um fragmento de Epicteto admite que até o sábio pode empalidecer diante de um perigo súbito. O que ele não faz é assinar embaixo.

Uma manchete alarmante é uma impressão de manual: um fato (algo aconteceu) mais um veredito (é gravíssimo, reaja já). O sobressalto é involuntário. Reler, compartilhar, remoer, responder com fúria já é assentimento — e o assentimento é seu.

A disciplina do assentimento

Nos Discursos (3.2), Epicteto divide a formação do filósofo em três campos: o do desejo e da aversão (desejar só o que depende de nós), o do impulso e da ação (agir como convém em relação aos outros) e o do assentimento (não se deixar enganar por impressões nem por argumentos). A disciplina do assentimento é a mais atual das três, porque pede o que as redes desencorajam por desenho: não concordar rápido — nem com a notícia, nem com a indignação do grupo, nem com a primeira leitura de uma frase fora de contexto. Epicteto queria juízos firmes até no sonho; hoje bastaria mantê-los durante dez minutos de rolagem.

Os exercícios de Marco Aurélio

Se Epicteto dá a teoria, Marco Aurélio mostra o treino. As Meditações são anotações de um imperador para si mesmo, muitas escritas em campanha militar. Pierre Hadot mostrou que se leem melhor como exercícios — frases repetidas não para informar, mas para refazer o próprio olhar — e encontrou nelas as três disciplinas de Epicteto: contentar-se com o que acontece, agir com justiça, julgar com discernimento. Alguns desses exercícios:

  • Preparar o dia (2.1). Marco lembra a si mesmo que vai encontrar gente intrometida, ingrata e arrogante, que age assim por ignorância do bem e do mal — e que fomos feitos para cooperar, como as mãos, os pés e as pálpebras.
  • Descrever as coisas despidas (3.11, 6.13). Uma iguaria é o cadáver de um peixe; um vinho famoso, suco de uva; a púrpura imperial, lã tingida com sangue de molusco. O exercício separa o que a coisa é do valor que a imaginação lhe acrescenta.
  • Não acrescentar nada à primeira aparência (8.49). Alguém falou mal de você: é o que a impressão relata. Que você foi prejudicado, ela não diz. Seu filho está doente: isso você vê. Que corre perigo, não vê.
  • Retirar-se para dentro de si (4.3). Em vez de buscar refúgio em lugares distantes, recolher-se no próprio pensamento, levando duas ideias à mão: as coisas não tocam a alma, a perturbação vem da opinião; e tudo o que vemos logo muda. Pouco depois (4.7): tire a opinião, e some a queixa de ter sido ferido.
  • Um fardo por vez (8.36). Não se abater com a imagem da vida inteira e de todas as dificuldades possíveis; o que pesa é sempre o presente, e o presente, isolado, costuma ser suportável.
  • Perguntar se é necessário (4.24). Quem quer tranquilidade deve fazer poucas coisas — as necessárias.