Cosmos da Filosofia
Vista de baixo para cima através de um óculo circular aberto para o céu

Ideia

Liberdade

Definição

Ausência de coerção externa, ou capacidade de agir segundo a própria razão. Os estoicos a situam no interior; Kant a identifica com a autonomia moral.

Duas perguntas com o mesmo nome

Quando falamos de liberdade, costumamos misturar duas perguntas diferentes:

  1. Somos livres por dentro? Nossas escolhas são realmente nossas, ou tudo o que fazemos é resultado de causas que não controlamos — genes, educação, química cerebral, as leis da física? É o problema do livre-arbítrio.
  2. Somos livres por fora? Que espaço a sociedade, o Estado e os outros nos deixam para viver como queremos? É o problema da liberdade política.

As duas se tocam: não faria sentido exigir liberdade política para seres que não escolhem nada. Mas são perguntas distintas, e esta página trata de ambas.

Parte I — O livre-arbítrio

O problema

Se tudo o que acontece tem uma causa, e essas causas remontam a um tempo anterior ao nosso nascimento, como uma escolha pode ser "nossa"? E, se não é nossa, como podemos ser responsabilizados por ela, elogiados ou punidos? Esse é o núcleo do problema: conciliar causalidade e responsabilidade.

Aristóteles: o que parte de nós

Aristóteles formulou uma das primeiras teorias da ação voluntária. Uma ação é voluntária quando tem origem em nós e é feita com conhecimento das circunstâncias — em oposição ao que fazemos forçados ou por ignorância. Ele já percebia a dificuldade: nosso caráter molda nossas escolhas, mas somos responsáveis pelo caráter que formamos?

Os estoicos: o cilindro de Crisipo

Os estoicos acreditavam que tudo acontece segundo o destino, mas não queriam abrir mão da responsabilidade. Crisipo usou a imagem de um cilindro: é preciso um empurrão para que ele comece a rolar, mas o fato de ele rolar, e não deslizar, depende de sua própria forma. Do mesmo modo, os acontecimentos externos nos afetam, mas o modo como reagimos depende de nossa natureza e de nosso assentimento. Nossas ações são "nossas" quando passam por nós. É uma das primeiras formas do que hoje se chama compatibilismo.

Epicuro: o desvio

Epicuro, ao contrário, parece ter visto no determinismo uma ameaça à liberdade e introduziu na física um desvio mínimo e imprevisível dos átomos. Os detalhes históricos dessa solução são disputados.

Epicteto: a liberdade interior

Para Epicteto, que viveu parte da vida como escravizado, a liberdade não depende das circunstâncias externas. Não controlamos o corpo, os bens, a reputação ou o que os outros fazem; controlamos o uso que fazemos das impressões — nossos juízos, desejos e escolhas. Quem é livre por dentro não pode ser acorrentado.

Agostinho, Tomás e Escoto

  • Agostinho entendeu a vontade como um poder de autodeterminação, mas reconheceu que desejos corrompidos podem torná-la incapaz de querer o bem de modo duradouro; a verdadeira liberdade exigiria a graça divina.
  • Tomás de Aquino tratou a vontade como um desejo racional, livre na deliberação sobre os meios para os fins que a natureza lhe dá.
  • João Duns Escoto defendeu vigorosamente que nada além da própria vontade é a causa total de seu ato.

Hobbes, Locke e Hume: liberdade é não ser impedido

No século XVII, Thomas Hobbes deu ao compatibilismo sua forma clássica: o contrário da liberdade não é a causalidade, mas o impedimento externo. Uma pessoa é livre quando nada a impede de fazer o que quer; ter podido agir de outro modo significa apenas que, se tivesse querido outra coisa, teria agido de outro modo.

John Locke achava que perguntar se alguém pode querer o que quer não faz sentido: seria preciso uma segunda vontade para determinar a primeira, e assim ao infinito. David Hume defendeu que liberdade e necessidade causal são compatíveis.