Cosmos da Filosofia
Sala de estar elegante do século XIX, vazia ao anoitecer, com pesadas cortinas de veludo entreabertas e uma vela quase apagada ao lado de um divã desarrumado

Liev Tolstói · 1886

A Morte de Ivan Ilitch

Um juiz bem-sucedido adoece e, diante do fim, passa a se perguntar se viveu como deveria.

MorteExistênciaSofrimento

Sobre a obra

Novela de Liev Tolstói publicada em 1886. Foi escrita pouco depois da conversão religiosa que o autor viveu no fim da década de 1870 e está entre as principais obras de ficção da fase posterior a Anna Kariênina. Nela, Tolstói critica as convenções familiares, as aparências sociais, a superficialidade e a hipocrisia da alta sociedade.

A narrativa começa pelo fim: colegas de Ivan Ilitch, respeitado juiz de um tribunal superior, recebem a notícia de sua morte e vão ao velório. Depois, o livro volta no tempo e acompanha a vida e a carreira dele, até que uma queda, sofrida enquanto arrumava a casa nova, desencadeia a doença fatal.

Diante da doença, Ivan passa a questionar profundamente o sentido da vida que levou. O texto contrapõe a existência artificial e interesseira do protagonista à simplicidade compassiva de Guerássim, jovem criado camponês que cuida dele sem reclamar. Martin Heidegger citou a novela em Ser e Tempo, a propósito do ser-para-a-morte.

Onde está a filosofia

Leituras do Cosmos da Filosofia — aproximações com os filósofos, não a intenção declarada dos criadores. Contém spoilers.

A morte dos outros

Na abertura, os colegas de Ivan recebem a notícia e logo pensam nas promoções que a vaga vai abrir, aliviados por ter sido ele, e não eles. Heidegger, que citou a novela em Ser e Tempo, descreve essa atitude: no cotidiano, a morte aparece como um fato impessoal, algo que acontece aos outros. Ivan viveu a mesma fuga até adoecer. Só quando a morte se torna inescapavelmente sua ele é obrigado a encarar a própria existência.