
Aplicações
Filosofia nas relações
Como conviver melhor com amigos, família e parceiros quando a amizade esfria, a raiva aparece ou o outro pensa diferente?
Aristóteles, Sêneca, Epicteto, Marco Aurélio, Kant, Schopenhauer e Platão pensaram a amizade, a raiva, a gratidão e o amor com uma precisão rara. O texto mostra o que cada um diz, onde tropeçam e como levar isso para a prática.
Quase tudo o que nos alegra e quase tudo o que nos tira o sono passa por outras pessoas: o amigo que parou de ligar, o irmão com quem não se fala desde o inventário, a discussão que começou pela louça, o favor que ninguém agradeceu, o parceiro sem o qual parece impossível respirar. Nada disso é novo. Os filósofos pensaram essas situações com uma atenção que surpreende — e, muitas vezes, com mais honestidade do que os conselhos que circulam hoje.
Por que algumas amizades esfriam
Os três tipos de amizade
A análise mais famosa está na Ética a Nicômaco, que dedica os livros VIII e IX à amizade. Aristóteles pergunta o que torna alguém digno de ser amado e encontra três respostas: porque é útil, porque é agradável ou porque é bom.
- Na amizade de utilidade, cada um gosta do outro pelo proveito que tira dele: o colega que cobre seus plantões, o contato profissional.
- Na amizade de prazer, gosta-se da companhia e da diversão: a turma do futebol, os amigos de festa. É, diz Aristóteles, a amizade típica dos jovens, que vivem guiados pelas emoções e correm atrás do que é agradável no momento: seus gostos mudam depressa, e as amizades mudam com eles.
- Na amizade de caráter, cada um quer o bem do outro por causa do outro, porque reconhece nele uma pessoa boa.
O diagnóstico é frio como um laudo: quando desaparece o motivo, desaparece a amizade. Troque de emprego, e o colega some; mude de fase da vida, e a turma se dispersa. Não é traição: o que sustentava a relação deixou de existir. Aristóteles nota ainda que as queixas surgem sobretudo nas amizades de utilidade, porque ali cada um vive fazendo as contas do que dá e do que recebe.
As duas primeiras não são falsas — Aristóteles as chama de amizades, embora imperfeitas. O ganho da distinção é entender que nem toda amizade que esfria fracassou. Algumas cumpriram seu papel.
O que a amizade plena exige
A amizade de caráter exige tempo — ninguém conhece o outro, lembra Aristóteles com um provérbio, antes de terem comido juntos muito sal — e convivência. Por isso não se pode ter muitos amigos desse tipo: quem é amigo de todo mundo acaba não sendo de ninguém. E se um amigo muda muito, a ponto de a amizade se tornar impossível? No Livro IX, Aristóteles admite que ela pode acabar, mas recomenda guardar a lembrança da intimidade passada e não tratar o antigo amigo como um estranho.
A objeção
Se a amizade perfeita depende da virtude dos dois, todo mundo, sendo imperfeito, estaria excluído dela. Críticos contemporâneos acrescentam que, se escolhemos amigos pelo caráter que admiramos, tendemos a escolher gente parecida conosco, reproduzindo divisões sociais; outros lembram que as diferenças podem ser justamente o que enriquece uma amizade.
O que sobra é bastante. Não é preciso ser sábio para ter uma amizade de caráter: basta que o laço se apoie no que o outro é, e não no que ele fornece. E a pergunta aristotélica continua útil: se esta pessoa deixasse de me ser útil ou divertida, o que restaria?
Escolher bem e confiar de verdade
Sêneca escreveu as Cartas a Lucílio a um amigo. Na Carta 3, critica o hábito de chamar de amigo qualquer conhecido e propõe uma ordem que muita gente inverte: julgar antes, confiar depois. Examine com calma quem vai admitir na sua amizade; admitido, receba-o de todo o coração e fale com ele com a franqueza com que fala consigo mesmo. Há dois vícios opostos, diz ele: confiar em todos e não confiar em ninguém.
Na Carta 9, enfrenta uma dificuldade estoica: se o sábio basta a si mesmo, para que amigos? A resposta inverte a pergunta. Ele não os busca para ser ajudado, mas para ter a quem ajudar — alguém ao lado de cuja cama possa sentar na doença, alguém que possa libertar se for preso. A amizade escolhida pela utilidade só dura enquanto houver utilidade; por isso os bem-sucedidos vivem cercados e os que caem se veem de repente sozinhos. Sêneca registra ainda a receita do estoico Hecatão para ser amado: amar. Aristóteles concordaria: a amizade, diz ele, está mais em amar do que em ser amado, como mostram as mães.
Dar e receber favores
Sêneca dedicou sete livros a isso: Sobre os benefícios. Ele abre dizendo que, entre as falhas de quem vive sem reflexão, quase nenhuma é tão danosa à convivência quanto não saber dar nem receber.
O ponto central do Livro I é que o benefício não é a coisa dada. O dinheiro ou o presente são o veículo; o benefício está na intenção. Daí os conselhos do Livro II:
- dar logo, antecipando a necessidade antes que o outro precise pedir;
- não humilhar: Sêneca critica o imperador Tibério, que acompanhava a ajuda com repreensões;
- dar em silêncio quando for o caso: o filósofo Arcesilau escondeu dinheiro sob o travesseiro de um amigo necessitado para poupá-lo do vexame;
- esquecer que deu: quem vive lembrando o favor desfaz a gratidão.
E, contra o cálculo: quem deixa de fazer o bem por não ter sido retribuído mostra que só dava para receber. A ingratidão, insiste Sêneca, muitas vezes é fabricada pelo modo ríspido de quem dá. Receber também é arte: quem aceita com alegria e agradece abertamente já pagou a primeira parcela. As fontes da ingratidão são três: achar que se merecia aquilo, a cobiça que sempre quer mais e a inveja de quem recebeu mais.
Aristóteles observa um fato curioso: quem faz o bem costuma amar mais o beneficiado do que o contrário, como o artesão ama sua obra — o que ajuda a entender por que o benfeitor se magoa tanto com o esquecimento. E Kant, em A metafísica dos costumes, compara o amor a uma força de atração e o respeito a uma força de repulsão, que mantém a distância devida. O respeito limita o amor: a bondade que não respeita acaba por humilhar.
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