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Filosofia nas decisões

Como decidir bem quando não dá para saber de antemão qual escolha é a certa?

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Nenhum filósofo decide por você, mas vários ensinam a decidir melhor: deliberar sobre o que está ao seu alcance, agir com firmeza sem ter todas as informações, testar a escolha contra o que é justo e assumir a vida que dela resulta.

Alguém recebe uma proposta de trabalho em outra cidade: salário melhor, mas longe da família. Outra pessoa está há anos numa relação que não vai mal, mas não vai a lugar nenhum. Um estudante precisa escolher um curso aos dezessete anos, como se soubesse quem será aos quarenta. Uma funcionária descobre que o chefe maquia números e precisa decidir se fala ou se cala.

O que essas situações têm em comum não é a falta de opções, mas a necessidade de escolher sem garantia. Não dá para viver as duas vidas e ficar com a melhor. As informações são incompletas, os valores entram em conflito, e o medo de errar pesa tanto quanto a escolha.

A filosofia não tem fórmula para isso, mas deixou maneiras de pensar que tornam a decisão mais lúcida, mais justa e mais fácil de sustentar depois.

Aristóteles: a prudência não é uma fórmula

Sobre o que vale deliberar

No livro III da Ética a Nicômaco, Aristóteles pergunta sobre o que deliberamos. Não sobre as coisas eternas, nem sobre o que acontece por acaso, mas sobre o que está ao nosso alcance — e, mais precisamente, sobre coisas que costumam acontecer de certo modo, mas cujo desfecho é obscuro e indeterminado. A incerteza não é um defeito da decisão; é a condição dela. Se o resultado fosse certo, bastaria calcular.

Aristóteles acrescenta que, nas questões importantes, chamamos outros para deliberar conosco, porque desconfiamos de nós mesmos como juízes. E a escolha, a prohaíresis, é um desejo deliberado: não um impulso, mas um querer que passou pelo crivo da razão.

A prudência

O nome da capacidade de decidir bem é phrónesis, prudência ou sabedoria prática. Ela exige experiência — ter visto muitos casos, ter errado, ter observado as consequências —, e por isso não se aprende em manual. A virtude torna o fim correto; a prudência encontra os caminhos até ele.

Logo no início da Ética, Aristóteles avisa que não se deve exigir de cada assunto mais precisão do que ele permite: a ética não é geometria. Como resume a Stanford Encyclopedia of Philosophy, nenhuma teoria ética, para ele, pode oferecer um procedimento mecânico de decisão. A pessoa prudente não consulta uma tabela: vê o que a situação pede.

O meio-termo como correção de rota

A virtude é um meio-termo entre dois vícios — a coragem entre a covardia e a temeridade —, mas o meio não é uma média aritmética: é o ponto certo para aquela situação. Achá-lo, observa Aristóteles, não é tarefa para qualquer um, como achar o centro de um círculo.

O conselho mais útil vem no fim do livro II. Como cada um tende mais para um dos extremos, devemos conhecer nossa própria inclinação e nos puxar para o lado oposto, como quem endireita uma vara torta curvando-a na direção contrária. E desconfiar sobretudo do prazer, que não julgamos com imparcialidade.

Diante da proposta de mudar de cidade, há quem recuse tudo o que é novo e chame isso de prudência, e quem troque de vida a cada insatisfação e chame isso de coragem. Aristóteles não diz se você deve ir ou ficar; diz para descobrir para que lado você costuma errar.

Descartes: decidir sem ter todas as informações

O viajante perdido na floresta

Descartes resolveu pôr em dúvida tudo o que havia aprendido. Mas a vida não espera a filosofia terminar: quem reconstrói a casa precisa de outro lugar para morar durante a obra. Por isso, na parte III do Discurso do método (1637), ele formula uma moral provisória.

A segunda regra é ser firme e resoluto nas ações, seguindo as opiniões mais duvidosas, uma vez adotadas, com a mesma constância que se fossem certas. A imagem é a de viajantes perdidos numa floresta: não devem vagar de um lado para o outro, e menos ainda ficar parados, mas caminhar sempre na mesma direção, o mais em linha reta possível, sem mudar de rumo por razões fracas — ainda que talvez só o acaso tenha determinado a escolha inicial. Se não chegarem aonde queriam, chegarão ao menos a um lugar provavelmente melhor que o meio da floresta.

Descartes não diz que qualquer escolha é boa. Diz que, quando não podemos discernir a opinião mais verdadeira, devemos seguir a mais provável, e que hesitar indefinidamente costuma ser pior do que uma escolha imperfeita levada a sério. O estudante que muda de curso a cada semestre porque nenhum parece perfeito é o viajante que anda em círculos. Descartes conta que essa regra o livrou dos arrependimentos e remorsos que perturbam os espíritos inconstantes, que hoje adotam um caminho como o melhor e amanhã o abandonam.

Fazer o que se julgou melhor

Em As paixões da alma (1649), Descartes trata da irresolução, que pode nascer de um desejo excessivo de fazer o bem. O remédio é habituar-se a crer que se cumpriu o dever quando se fez o que se julgou melhor, mesmo que se tenha julgado muito mal (art. 170). A disposição mais alta seria a generosidade, que inclui uma vontade firme e constante de usar bem a própria liberdade. Numa carta de 1645 à princesa Elisabeth, ele soma a essa vontade o esforço de usar todo o entendimento para julgar bem. Repare nas duas metades: firmeza sem esforço de julgar vira teimosia; esforço de julgar sem firmeza vira paralisia.

Os estoicos: o que depende de você

A primeira divisão

O Manual de Epicteto começa separando o que depende de nós — juízos, desejos, aversões, ações — do que não depende: o corpo, os bens, a reputação, os cargos. Sofremos quando tratamos como nosso o que é alheio.

Aplicada às decisões, a divisão desfaz uma confusão comum: julgar uma escolha só pelo resultado. Você controla a qualidade da deliberação e o empenho da ação, não se a empresa vai falir ou se a outra pessoa vai mudar. O estoicismo põe o peso da avaliação onde está o seu poder.

Cícero, no livro III de Sobre os fins dos bens e dos males, põe na boca do estoico Catão uma comparação que ilustra a ideia. Para quem atira uma flecha num alvo, o objetivo último é fazer tudo o que pode para mirar bem; acertar é algo a escolher, não o bem que se busca. Um vento pode desviar a flecha. Quem mede a decisão só pelo desfecho vive refém da sorte.

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